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DEPENDÊNCIA AFETIVA


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26.06.2018, 23:34

COMO IDENTIFICAR A PERSONALIDADE DEPENDENTE

Mais conhecido pelo termo de “dependência afetiva", o distúrbio da personalidade dependente provoca comportamentos extremos de apego patológico e de submissão aos outros.



Por: Sarah Terrien – Le Figaro Santé 

A "dependência afetiva”. Nos últimos anos, esse termo pseudopsicológico invadiu as capas das revistas e livros de desenvolvimento pessoal. Às vezes descrita como o fato de não se conseguir fazer nada sem a presença do cônjuge, às vezes como o fato de querer ser amado a qualquer preço, a dependência afetiva “não aparece em nenhuma classificação médica séria”, diz Christophe Versaevel, psiquiatra em um dos hospitais públicos da cidade de Lille. “Mas esse transtorno da personalidade pode muito bem se esconder em um outro distúrbio, o da personalidade dependente”, continua esse especialista. Este último, bem estudado no âmbito das ciências psicológicas, se caracteriza por uma necessidade permanente e excessiva de ser apoiado, o que induz comportamentos de submissão e de apego patológico. Tais atitudes não se limitam ao casal, mas podem se estender à família bem como aos colegas de trabalho. Contrariamente às ideias correntes a respeito, trata-se de uma patologia que não pode ser tratada a partir de métodos miraculosos.
Uma autonomia difícil
“Ter apego ao cônjuge ou à família é uma postura sadia. Mas no transtorno da personalidade dependente, existe um “excesso” que acarreta mal estar e sofrimento”, explica Christophe Versaevel. “Pode ser que essas pessoas se sintam incapazes, o que lhes impede de resolver as coisas sozinhas. Pode ser que elas tenham a impressão de não ser amadas, o que lhes traz um sentimento de insegurança afetiva. Em ambos os casos, a relação com o outro é utilizada como meio para alcançar segurança e tranquilidade”, completa o psiquiatra.
Cerca de 2% da população francesa manifesta essa síndrome, e esse dado provavelmente é o mesmo em todo o mundo desenvolvido, e ela atinge tanto as mulheres quanto os homens, explica Marlène Fouchey, psicóloga especializada em terapias cognitivo-comportamentais na cidade de Lyon. Para essas pessoas, alcançar um estado de autonomia representa um verdadeiro combate. E não apenas na esfera afetiva: “Elas são dependentes em todos os níveis, inclusive naquele que diz respeito aos seus raciocínios e opiniões. Elas aderem às ideias e comportamentos das pessoas que frequentam”, esclarece Quentin Debray, professor de psiquiatria e coautor do livro Les personnalités pathologiques (As personalidades patológicas, Ed. Elsevier/Masson).
“São pessoas que não conseguem viver sozinhas pois necessitam constantemente de alguém para validar suas decisões”, diz Marlène Fouchey. E isso tanto para a escolha de um filme, um restaurante, ou ainda no contexto profissional. “Essa necessidade constante de apoio leva tais pessoas a adotar um comportamento submisso e pegajoso”, salienta Christophe Versaevel. “Elas pedem conselhos o tempo todo. E, para não perder suas relações afetivas, elas quase nunca afirmam estar em desacordo com a opinião do outro”, prossegue o psiquiatra.
Dar um basta nas ideias preconcebidas
 “Isso nada tem a ver com o fato de passar por uma ruptura amorosa mal resolvida”, adverte Marlène Fouchey. “O temor da ruptura existe em muitas pessoas, e não apenas naquelas que sofrem de um distúrbio da personalidade dependente”, confirma Quentin Debray. “Isso também nada tem a ver com o fato de se manter um relacionamento com uma pessoa tóxica e manipuladora. A atitude de submissão do dependente provem do seu funcionamento interno e não do comportamento da pessoa com a qual ele compartilha a sua vida”, acrescenta a psicóloga.
“Também não se trata de ciúmes”, afirma Marlène Fouchey. Um clichê que certamente tem origem no comportamento às vezes excessivo dos dependentes que se manifesta, por exemplo, no fato dele mandar o tempo todo mensagens e recados à pessoa com quem se relaciona afetivamente. “O dependente não envia mensagens e recados para verificar com quem está seu companheiro ou o que ele está fazendo, mas sim para ter certeza de que ele está sempre lá, ao alcance da mão”, explica Quentin Debray. Uma análise compartilhada por Christophe Versaevel: “Essas pessoas têm necessidade de coletar elementos da realidade que lhes deem segurança, tais como os repetidos chamados telefônicos, cujo único objetivo é tentar dizer ao outro ‘eu estou aqui”. Tais comportamentos são dificilmente suportados pelo círculo social do dependente.
Uma abordagem psicológica eficaz
“Quando essas pessoas conseguem encontrar um equilíbrio em suas vidas, ou na vida do casal, elas param de ‘pegar no pé’ dos outros”, explica Marlène Fouchey. Mas quando tais comportamentos afetam e comprometem em excesso a sua vida quotidiana, uma abordagem psicológica torna-se necessária. E uma coisa é clara para Quentin Debray: “A psicanálise pode ajudar muito pouco no tratamento de um distúrbio da personalidade dependente!”
A decisão de consultar um terapeuta profissional é muitas vezes tomada por causa da ocorrência de um episódio depressivo ou de um distúrbio de ansiedade. Essas são duas patologias frequentes nas pessoas dependentes. Normalmente após algumas consultas, o profissional consegue identificar o distúrbio que deu origem a tal comportamento, e isso possibilitará uma terapia cognitivo-comportamental centrada na afirmação de si mesmo.
“Nós mostramos às pessoas como exprimir aquilo que elas desejam, a desenvolver atividades reservadas para elas mesmas”, explica Marlène Fouchey. Para Christophe Versaevel, é primordial fazer com que a pessoa tome consciência de que esse sentimento de incapacidade é apenas uma sensação, e não uma realidade. “É preciso que o paciente aprenda a se sentir capaz de assumir as suas reais capacidades”, continua o médico. Entre as sessões, os pacientes devem fazer “exercícios”, como ir sozinho escolher e comprar uma peça de roupa em uma loja.
Essa terapia de apoio não costuma durar, forçosamente, anos e anos: “O paciente não irá mudar sua postura da noite para o dia, mas normalmente bastam alguns poucos meses para observarmos nele uma evolução positiva. E, ao final, ele poderá se livrar desse funcionamento patológico”, assegura Christophe Versaevel.
Em tais casos, o papel do psicólogo ou psiquiatra é particularmente delicado. “Esses pacientes podem facilmente tornar-se dependentes de seus terapeutas, informa Marlène Fouchey. “Por sinal, quando começo a receber dezenas de mensagens diariamente de um paciente, já sei que este é um indício que conduz ao diagnóstico de um distúrbio da personalidade dependente”.


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