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CONDENADOS A RECORDAR


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22.05.2018, 07:06

A MALDIÇÃO DOS QUE TÊM UMA SUPER MEMÓRIA

Viagem ao cérebro das pessoas que não conseguem esquecer o que viveram, até mesmo anos e anos depois. São os que sofrem da síndrome de hipermnésia, prisioneiros de uma memória de ferro. “O esquecimento é uma benção: ajuda a abrir espaço para novas recordações e a remover lembranças dolorosas”, costumam argumentar os espiritualistas adeptos da teoria da reencarnação e das vidas passadas. Mesmo sem compartilhar dessas crenças, a moderna psicologia defende exatamente a mesma coisa.



Por: Equipe Saúde 247 - Le Figaro Santé

Considere uma data qualquer dos últimos 15 anos, tomada ao acaso, e Nima Veiseh, um jovem artista e pesquisador norte-americano, contará tudo o que lhe aconteceu naquele dia, como se tivesse sido ontem. Dirá como estava vestido, que coisa comeu no almoço, como estava o tempo, e de que lado estava sentado no metrô quando se dirigia ao trabalho.
Veiseh sofre de síndrome hipermnésica (do grego mnéme, memória): recorda com precisão absoluta quase todos os eventos da sua vida, como se no lugar do cérebro ele tivesse uma videocâmera permanentemente acesa.
Os que sofrem dessa rara condição – apenas algumas dezenas de pessoas no mundo todo – parecem incapazes de esquecer e de abandonar as recordações no processo normal de esquecimento que diz respeito aos aspectos menos relevantes da vida.
Humanos normais em todo o resto
A memória de Veiseh não funciona de maneira diversa da nossa. Nima não sofreu traumatismos ou qualquer dano cerebral. A sua capacidade de recordar, como a de todos nós, às vezes tende a produzir falsas recordações; e pode acontecer que, se ele consegue recordar com minúcias e detalhes os eventos ocorridos em 13 de maio de 2003, não consegue repetir um nome que ouviu cinco minutos atrás. O que o torna, portanto, impermeável ao esquecimento?
Depois de anos de estudo, os neuropsicólogos começaram a compreender alguma coisa a respeito. O primeiro caso descrito de síndrome de hpermnésia foi o de Jill Price, uma mulher norte-americana de 49 anos. No início da década de 2000, Jill contatou o neurobiologista Jim McGaugh, um especialista em memória humana, afirmando recordar-se perfeitamente de cada detalhe dos eventos que ocorreram em sua vida a partir dos 12 anos de idade. Os testes em laboratório feitos a seguir confirmaram as suas afirmações.
Uma memória prodigiosa
Jill mantivera um diário no qual anotara minuciosamente cada detalhe das suas jornadas, e isso serviu para que seus relatos fossem verificados. Essa mulher se recordava de cada data na qual tinha caído a Páscoa, desde o ano 1980 até hoje; sabia, por exemplo, que na noite de 19 de outubro de 1979 tinha tomado uma sopa de ervilha; à medida que o tempo passou, ela se recordava com exatidão de todas as datas e os conteúdos de cada encontro que mantivera com McGaugh em seu laboratório de neurobiologia. 
A história de Jill Price foi motivo de interesse de vários jornais e revistas, bem como de documentários televisivos. Com o tempo, algumas dezenas de pessoas entraram em contato com McGaugh e colegas, que tinham começado a desenvolver estudos sobre essa condição.
Antes de tudo, observou-se que o único tipo de memória que parece realmente excepcional nessas pessoas é aquela autobiográfica. Se submetidas a uma lista aleatória de palavras, não alcançavam performances de memória melhores do que qualquer outra pessoa.
Nas pessoas que possuem uma memória “normal”, a lembrança de um acontecimento começa a adquirir contornos cada vez menos nítidos e desfocados à medida que as semanas e os meses passam. Tudo acontece como se aquela lembrança fosse pouco a pouco recoberta por outras lembranças, de acontecimentos mais recentes. Mas para quem sofre de síndrome de hipermnésia a evocação dos fatos ocorridos permanece sempre fresca e repleta de particularidades.
Nenhuma diferença anatômica
O segredo, portanto, parece residir no modo como a informação é retida. Mas os exames de imaging cerebral aos quais essas pessoas foram submetidas não mostram nenhuma peculiaridade nos seus cérebros. Com exceção de um trecho recorrente, ou seja, uma rede mais intensa de conexões cerebrais neuronais entre os lobos frontal (envolvidos nos processos de pensamento analítico) e o hipocampo, uma estrutura fundamental na codificação de recordações. Essa particularidade, no entanto, pode se tratar de uma consequência, e não da causa, da síndrome hipermnésica.
Lawrence Patihis (que agora trabalha na Universidade do Sul de Mississipi) descobriu, contudo, um dado interessante: Ao analisar 20 pacientes incapazes de esquecer, encontrou pontuações particularmente altas em dois valores: disposição para fantasiar (fantasy proneness) e capacidade de absorção ou de imersão atenta (absorption).
A primeira diz respeito à tendência a imaginar e a sonhar de olhos abertos, a segunda é a capacidade de se imergir completamente em alguma atividade e de viver em profundidade cada sensação relativa a ela.
Com frequência os pacientes hipermnésicos são muito mais sensíveis a sons, odores e detalhes visuais, particularidades que se ligam às recordações tornando-as indeléveis. A capacidade de absorção lança as bases para recordações duradouras e detalhadas; a disposição à fantasia faz com que as experiências sejam continuamente revividas, dia após dia, mês após mês. Cada vez que a recordação é “repercorrida”, ela se torna mais sólida.
Naturalmente, não todos que sonham a olhos abertos sofrem de síndrome de hipermnésia. Para Patihis, tais pessoas, durante a infância, viveram algumas experiências que as obrigaram a pensar insistentemente no próprio passado; muitas têm uma relação quase obsessiva com calendários, diários, recortes de jornais, fotografias e artigos de época, que acumulam e reordenam continuamente (com traços que recordam comportamentos obsessivo-compulsivos).
Hipermnésia: um bem ou um mal?
As pessoas com síndrome hipermnésica admitem que, em alguns casos, essa condição traz algumas vantagens. Veiseh, por exemplo, viajou o mundo todo para participar de competições internacionais de tae-kwon-do e, nos momentos livres, visitou dezenas de galerias de arte. Hoje ele se recorda com detalhes de todos os particulares e da disposição das obras nas galerias, e isso lhe traz muitas vantagens em sua atividade artística.
O outro lado da moeda é menos agradável. Das recordações retidas não desaparecem nem sequer as sensações de embaraço ligadas a alguma gafe cometida ou a fracassos no trabalho, ou a dor que se sente ao ser abandonado pela pessoa amada, as tristezas de um funeral ou da doença de algum familiar querido. Tais lembranças emergem constantemente, na forma de flashbacks. Portanto, às vezes o passar do tempo e a capacidade de esquecer são uma verdadeira benção.


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